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domingo, 8 de março de 2015

UMA AVENTURA DENTRO DA NOITE



Toda manhã, um berro agudo e irritante acordava Pedro, Celso e Tilico. Essa voz esganiçada que os perseguia deixava-os bastante irritados. Mas, uma noite, os meninos tiveram uma ideia:
- E se a gente raptasse o Berrão? – propôs Tilico, usando o apelido que a m~e achava uma absoluta falta de respeito.  “Não se tem mais respeito pelas pessoas idosas, pelas coisas antigas…”
Os três riram baixinho, achando muito divertido.
- Pra esconder onde? – Pedro perguntou, brincando com a ideia. Se fizerem isso, será que alguém ia desconfiar deles? Podia ter até bilhete de resgate… Não, era má ideia. Bilhete de resgate era pista. Muito perigoso.
- Melhor pensarem que ele simplesmente desapareceu, se foi… Do tipo que aparece nos jornais: “Pessoa desaparecida. Quem souber notícias…” – Celso deu a dica. […]
Os três riram de doer a barriga, isso tudo era mesmo muito engraçado, a ideia de se livrar pra sempre do Berrão…
- A gente podia raptar ele sem bilhete, que dizer: pra valer. E esconder no meio do mato, lá bem dentro do terreno vazio, atrás do muro da esquina – insistiu Tilico falando sério e os irmãos pararam de rir.
[…]
Naquela noite, finalmente, os três se decidiram.
- Vamos raptar o Berrão. O plano é…
Com um monte de travesseiros embolados debaixo das cobertas, fingindo de gente, os três acharam que ninguém ia perceber se abrissem a porta. Só com a luz da lanterna de pilha, Celso levantou o vidro da janela e ficou segurando, enquanto Tilico pulava.
Então, Pedro, o mais forte dos três, levantou o volume embrulhado num cobertor, e passou pelo parapeito…
- Depressa, gente!
… Todos pularam e Celso fechou a janela, deixando só encostada. Pra quando eles voltassem.
[…]
Por uma brecha na parede, eles entraram no terreno vazio e foram afundando pelo mato.
- Estão vendo alguma coisa suspeita por aí? – perguntou Celso, ansioso.
- Nada – respondeu Pedro. – Tudo calmo.
[…]
- Está muito quieto. O que você fez com ele, hein, Pedro?
- Nada, juro! Eu só cheguei por trás e joguei a manta por cima. Depois, agarrei ele firme e corri pra janela. Eu apertei bem, pra se de repente ele começasse a gritar e estrebuchar… eu enrolei bem ele.
- Ele está muito quieto mesmo […] – Será que nós sufocamos ele?
- Acho que não. Ele deve estar só descansando – falou Tilico. Bem no meio do terreno, os garotos pararam e deitaram o embrulho do cobertor no chão, entre os três.
- O que a gente faz agora? – perguntou Celso.
Celso, Pedro e Tilico se aproximaram ainda mais e se juntaram numa rodinha apertada, pra combinar o que iam fazer, que nem jogador antes de começar o jogo.
[…]
Celso, Pedro e Tilico levantaram o cobertor devagarinho e olharam para o raptado, ali mo meio deles, imóvel e mudíssimo.
Pedro ajoelhou-se e encostou o ouvido:
- Gente, eu acho que nós despachamos ele!
- E agora? – perguntou Celso, assustado. – Ele está…
- Acho que ele está acabdo – respondeu Pedro, baixinho.
O silêncio ficou mais fundo, quando os meninos mediram as consequências da travessura. Tinha sido um acidente, eles não tinham a intenção… era só por uns tempos, eles não pretendiam maltratar o Berrão.
[…]
- O que a gente faz quando dá cabo de lguém? – Tilico perguntou.
- A gente enterra, ora.
celso saiu correndo, na direção do quintal da casa. Voltou com um caixote de madeira, martelo e pregos e entregou pros irm~çaos.
Pedro abriu a tampa do caixote e falou:
- Bota ele aqui dentro, Tilico.
Sentado no cobertor aberto, ainda examinando a vítima, Tilico respondeu:
- Não cabe, Pedro. Esse caixote é muito pequeno! Como é que a gente faz? Olha, só a cabeça dele tem um palmo. Fora os pés que são compridos e não entram, olha aí!
Pedro olhos pras perninhas finas e abertas do Berrão e falou:
- Vamos dividir ele em pedaços qie cabe.
Os meninos não tiveram tempo pra pensar. Na falta de um serrote, o canivete suíço mesmo serviu, mas demorou um tempão, claro. A lâmina era pequena demais.
Celso recolheu os restos do ex-Berrão e acomodou no caixote.
Tilico desceu a tampa depressa, evitando olhar os pedaçõs empilhados.
- Agora enfia os pregos, enquanto Celso bate com o martelo – Pedro ia instruindo. – Isso! Agora, o buraco.
Cada um cavou um pouco, com uma tampa de lixo que alguém tinha abandonado por ali.
- Já está bom – falou Tilico, esbaforido.
Celso, vermelho e suado, perguntou:
- Nós demos cabo dele mesmo?
- Você ainda tem dúvida? – estranhou Pedro.
- Se não estava antes, agora cada pedacinho esquartejado está mortinho da silva – atestou Tilico.
Desceram o caixote e tamparam o buraco, jogando toda a terra por cima dele de novo.
[…]
Na volta pra casa, eram apenas três sombras acompanhando os meninos pelo muro, e não mais quatro.
A manhã chegou friinha, e os três enrolados na quentura boa da cama, sem ningué pra atrapalhar.
O pai acabou de ler o jornal inteiro, e nada dos meninos descerem.
- O que está acontecendo hoje por aqui? – o pai perguntou pra mãe. – Está com jeito de feriado…
[…]
O pai dobrou o jornal com um risinho disfarçado na cara e avisou:
- Acho que os meninols perderam a hora hoje.
- Não é possível, não acredito! – reclamou a mãe afobada, subindo a escada e entrando no quarto ainda escuro.
Andou de cama em cama, sacudindo as cobertas, e chamando:
- Pedro, Celso, Tilico! Isso são horas? Vocês perderam a aula hoje!
Pedro boceja, Celso senta na cama piscando forte, Tilico cobre a cabeça e finge que está roncando.
A mãe abre a janela e encara os três malandros:
- Como foi que vocês perderam a hora, meninos? Por que não levantaram quando ele…
Silêncio.
A mãe olha em volta do quarto, por cima dos móveis. Fica confusa, não entende. Torna a olhar para os meninos.
[…]
Diante das três estátuas mudas, ali sentadas, a última pergunta já sai num berro:
- ONDE ESTÁ O DESPERTADOR?
Stella Carr. Fragmentos do livro Uma aventura dentro da noite, re-editado pela autora, sob autorização da Editora Abril Jovem, São Paulo, 1995.

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